quarta-feira, 11 de julho de 2018

Revolução Constitucionalista de 1932. 3° Parte.

Em 9 de Julho de 1562, incomodados com a aliança entre tupiniquins e portugueses, os índios tupinambás, unidos na Confederação dos Tamoios, lançam uma série de ataques contra a vila de Piratininga. Tal episódio ficou conhecido como o Cerco de Piratininga. A defesa organizada por Tibiriçá e João Ramalho impede que os tupinambás entrem em São Paulo, e os obriga a recuar, em 10 de julho do mesmo ano.

370 anos mais tarde, Getúlio Vargas era o "Presidente" do Brasil. Presidente é apenas é o modo de falar, já que o mesmo não chegou lá pelos votos, 2 anos antes em 1930, Getúlio não foi eleito presidente. Porém, inconformado com o fracasso das eleições, procurou o apoio dos estados de Minas Gerais, Rio Grande de Sul e Paraíba para impedir que o candidato eleito (Júlio Prestes) tomasse posse. Graças ao apoio militar adquirido, Getúlio assumiu o comando do país.

E deu treta, muita treta.

Blindados

Trem blindado

Uma das frentes do blindado, onde se pode ver o canhão 75mm.
Créditos Wikipédia.
Em 1932, São Paulo tinha o seu sistema de transporte majoritariamente baseado em estradas de ferro, com cerca de 7 mil quilômetros de trilhos ferroviários. Com a eclosão do conflito esse recurso passou a ser usado para o transporte de tropas e suprimentos. Porém, logo no início os paulistas começaram a explorar o seu potencial bélico, dado o conhecimento das experiências bem-sucedidas na Primeira Guerra Mundial com blindados nesse formato. Assim surgiu, ao final de julho de 1932, o primeiro trem blindado.

O projeto inicial foi concebido numa parceria entre a Escola Politécnica de São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas e Cia Ferroviária Sorocabana. O protótipo surgido foi o denominado TB-1, sigla para “Trem Blindado nº 1”. O projeto foi do engenheiro francês Clèment de Baujaneau radicado ao Brasil após a Primeira Guerra Mundial, que conheceu as experiências com esse tipo de blindado naquele conflito. A montagem do protótipo foi do engenheiro Augusto Ferreira Velloso, da Escola Politécnica.

Na Frente Sul, na divisa com o Paraná, apesar das dificuldades iniciais com a falta de suprimentos e a coordenação das tropas, que culminou com a perda da posição da cidade de Itararé e recuo para Buri, os paulistas estabeleceram nessa cidade uma linha defensiva suficiente para fazer frente às tropas federais, tendo sido o TB-1 fundamental para tanto, pois conteve o avanço das tropas federais enquanto as tropas constitucionalistas articulavam sua linha defensiva. Fernando Penteado Medici, em seu livro “Trem blindado” de 1933, deu o seu testemunho sobre a primeira atuação do protótipo TB-1, na cidade de Buri, em 26 de julho de 1932: "Dois quilômetros e o inimigo à vista. Os homens avançavam, certos de que era um trem de mercadoria, ou de víveres, realmente como estava disfarçado, e, em posição de atirar, ajoelhavam pelos trilhos. As nossas metralhadoras picotaram os inconscientes. A primeira impressão foi dolorosa. Pungente mesmo. Presenciar umas cenas destas". Essa atuação do TB-1 ocorreu sem ele estar completamente finalizado, tendo sido comandado pelo primeiro-tenente Affonso Negrão, onde conseguiu aniquilar completamente as forças inimigas e retomar a cidade paulista de Buri.

Um dos vagões do TB-5, onde é possível ver a torre giratória da
metralhadora Hotchkiss 7mm. Créditos Wikipédia.
O primeiro protótipo, o TB-1, foi construído em Sorocaba e consistia em uma locomotiva a vapor e um vagão, ambos blindados. No vagão, os soldados posicionavam-se em pequenas aberturas com metralhadoras Hotchkiss 7mm modelo Francês. No teto, havia duas grandes lanternas para iluminar as trincheiras inimigas à noite, utilizando a energia da própria locomotiva. Após sua primeira atuação, o TB-1 voltou para a oficina para ser aprimorado e passou então a adotar a denominação TB-3.

O sucesso da atuação do TB-1 foi tanto que logo foi construída a segunda unidade, com a locomotiva nº 216, cuja denominação foi TB-2. O TB-2 e o TB-3 passaram a operar em toda a Frente Sul, principalmente na região de Buri, com patrulhas regulares pelas estações de Engenheiro Hermillo, Lidiana e Aracassú, na contenção da ofensiva das tropas federais. A partir do TB-2, os trens blindados foram padronizados para adotar um segundo vagão, em que um era a frente e outro atrás da locomotiva, equipados com metralhadoras leves Hotchkiss 7mm e com canhões Krupp ou Schneider de 75 mm nas duas extremidades. A blindagem era extremamente resistente, feita de peças de madeira de faveiro de alta resistência e revestidas por grossas chapas de aço. Não havia portas ou janelas, sendo a entrada por meio de um pequeno buraco no chão dos vagões e a entrada de ar e visualização externa feita por três pequenas aberturas. A comunicação entre os vagões e o maquinista era feita por meio do telefone. Havia também um calço para travar e sustentar os vagões no solo durante os tiros de canhões. A tripulação era formada por até 18 pessoas, com 15 soldados e 3 responsáveis pela operação do trem. Dado as poucas aberturas de ventilação, o calor no interior dos vagões era intenso, em que era comum os soldados atuarem somente de calça.

As tropas federais quando em embate direto com esses blindados não causavam qualquer dano nos vagões, tampouco tinham como reagir seja para descarrilar o trem ou cercá-lo, pois dado sua amplitude de fogo, o blindado conseguia varrer qualquer resistência a dezenas de metros, tanto à frente como nos flancos ou na retaguarda. Assim, jamais houve episódio de tropas federais cercarem ou mesmo descarrilarem o blindado, de modo a obrigarem a rendição da tripulação. Soma-se ainda o fato de as tropas federais não estarem preparadas para combater esse tipo de ataque, assim, o surgimento do blindado sempre causava pânico e debandada de soltados federais.

O TB-4 em Itapira. Créditos Wikipédia.
O contínuo sucesso desses dois primeiros protótipos motivou também o consorcio entre a Politécnica, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, as Cia. Mogiana e Cia. Paulista de Estrada de Ferro. Foram assim construídos ainda no início do mês de agosto o TB-4, na oficina de Rio Claro, e o TB-5, na oficina de Campinas, em que ambos passaram a operar nas frentes de combate do denominado “Setor Leste”, na divisa com Minas Gerais. As locomotivas empregadas no TB-4 e TB-5 foram respectivamente as de nº 730 e 732, que eram ligeiramente menores que os dois primeiros protótipos, e nelas foram instaladas blindagens até mesmo nas extremidades baixas e instalados canhões em torres giratórias, permitindo uma cobertura de 360 graus e possibilitando o ataque simultâneo a todos os lados. Além disso, passaram a ter pintura camuflada, em tons de verde escuro, contando também com tripulação de 18 soldados. Os dois blindados foram sediados em Mogi Mirim, fazendo incursões noturnas na fronteira com Minas Gerais, desde a região de Mococa até Bragança Paulista.

A última unidade, o TB-6, foi o maior e mais potente de todos os cinco trens blindados, contava com três vagões blindados cuja comunicação entre eles era por telefone e possuía uma tripulação que consistia em cerca de 40 homens. O poder de fogo era predominantemente por meio metralhadoras, com várias do tipo leve modelo Hotchkiss e algumas do tipo pesada modelo Schwarzlose, além de um canhão 75mm posicionado no carro nº 1 situado a frente da locomotiva e alguns soldados com fuzil de assalto. Operava apenas nas linhas de bitola larga, da Estrada de Ferro Central do Brasil. Foi construído pela oficina ferroviária do bairro do Brás, na capital, e tão logo finalizado passou a atuar no denominado “Setor Norte” que compreendia todo o Vale do Paraíba, atuando sobretudo na linha férrea que liga a São Paulo ao Rio de Janeiro. Participou de combates em Resende, Itatiaia, Queluz, Cruzeiro e Lorena. Segundo o comandante daquele setor, o então Coronel Euclides Figueiredo, sua estréia naquele front ocorreu em 4 de agosto de 1932 e as suas "incursões diabólicas nas linhas inimigas" eram muito eficazes para o recuo do inimigo e para a cobertura da infantaria paulista. Inicialmente foi comandado pelo tenente Tito Pacheco, porém, as suas operações foram suspensas em meados de agosto para remanejamento dos recursos bélicos do blindado para suprir a demanda de algumas frentes de combate.

O TB-6, "O Fantasma da morte", estacionado a frente da estação
de Guaratinguetá, em setembro de 1932. Créditos Wikipédia.
No início de setembro, o então tenente Paulo Junqueira Duarte veio a assumir o comando das operações do blindado para garantir a cobertura móvel para as manobras da 2ª Divisão de Infantaria em Operações, e nesse posto teve notável atuação, sobretudo nos combates entre Lorena e Cachoeira Paulista, onde infligiu dezenas de baixas entre as tropas adversárias que temerariamente tentavam cercar o blindado. Também fizeram parte destes combates, por meio do blindado, os então capitães Reinaldo Saldanha da Gama e Arcy da Rocha Nóbrega. Durante as missões além das linhas inimigas, alguns dos tripulantes deixavam bilhetes em provocação às tropas federais, por exemplo, na ocasião em que deixaram caixas de cigarros na linha férrea e uma nota escrita: "Para aqueles que tem coragem de lutar por uma causa tão miserável" e também o bilhete na oportunidade em que desativaram uma armadilha na linha férrea para descarrilar o trem: "A 'ursadinha' não deu resultado. Dá próxima vez não façam um trabalho tão porco". Porém, o blindado passou a ser muito visado pelas tropas adversárias, especialmente pela artilharia, tendo o comando das tropas federais ofertado uma recompensa para quem o neutralizasse. Segundo o seu comandante, o TB-6 chegou a receber tiros diretos de 37mm e estilhaços de 75mm, mas sem resultar em qualquer avaria e era também muito visado pela fuzilaria das tropas federais, o que tornava o ambiente interno do blindado ensurdecedor. Além disso, por vezes os adversários tentavam descarrilá-lo obstruindo a linha férrea com pedras e dormentes.

O Trem Blindado nº 6, "O Fantasma da Morte", em setembro de 1932. Créditos Wikipédia.
Consta também que o TB-6 teve fundamental papel na cobertura das tropas paulistas quando do recuo para Guaratinguetá, onde pode impedir com sucesso o avanço e o envolvimento pelas tropas federais. Essa versão foi apelidada de “O Fantasma da Morte” pelos soldados, pois a maioria das suas incursões era noturna, onde chegava sorrateiramente próximo as posições inimigas e de súbito ligava seus potentes holofotes sobre as trincheiras das tropas federais, denunciando suas posições e na sequência varrendo o inimigo com a sua fuzilaria e o seu canhão. As tropas federais, sem como reagir e tomadas pelo pânico, debandavam em desordem, deixando para trás suas posições e armamentos, enquanto eram alvejadas pelos paulistas.

Findo aquele conflito, o governo provisório de Getúlio Vargas logo se apressou em desmantelar ou retirar de São Paulo o todo o armamento operante. Assim, todos os trens blindados foram recolhidos a suas respectivas oficinas para o devido desmonte, sendo as locomotivas retornadas às condições originais de tráfego convencional.

Outros Modelos.

O blindado "FS-5" em São Paulo. Créditos Wikipédia.
A Escola Politécnica de São Paulo e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas também projetaram e construíram outros tipos de blindados, como os autos blindados, tratores blindados e lanchas blindadas.

Os carros blindados de assalto foram baseados no chassi de automóveis e caminhões Ford, Chevrolet e Mac Coorning Deering, principalmente, sendo que a maioria deles foi construída nas Fundições e Oficinas Gerais Viúva Craig & Cia Ltda e J.Martin & Cia Ltda, na cidade de São Paulo, sob a supervisão técnica do Engenheiro Francisco de Sales Vicente de Azevedo e demais engenheiros da Escola Politécnica. No total, foram fabricados seis automóveis blindados que receberam as designações de FS, em referência ao seu autor. Esses blindados, devido à escassez de chapas de aço grossa, utilizavam duas chapas mais finas de cerca de 12 mm de espessura e entre elas era colocada lã de carneiro, de modo a impedir que um projétil atravessasse essa chapas. Também possuíam suspensão reforçada, com feixes extras de molas, de modo a suportar o peso da blindagem e dos soldados. Alguns possuíam torres giratórias de onde se podia disparar uma metralhadora pesada ou uma metralhadora leve Hotchkiss 7mm.

Ao longo do conflito foram também recebendo melhorias na sua capacidade operacional. Esses carros blindados foram empregados em diversas frentes de batalha, nas fronteiras do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. Eles transportavam em média quatro homens, porém, o FS-8, podia transportar até oito soldados, tendo sido operado no Vale do Paraíba, onde ostentava pintura verde, embora a maioria fosse camuflada no padrão francês da primeira guerra mundial, em cores marrom, verde e azul claro. Esses blindados foram empregados como apoio à infantaria, em reconhecimento e na cobertura quando da retração das tropas constitucionalistas. O FS-8 atuou em conjunto com o TB-6 em setembro de 1932 na cidade Lorena, quando deram cobertura mútua e para as tropas quando do recuo para Guaratinguetá.

O blindado lança-chamas feito a partir de um trator lagarta
Caterpillar, projetado por Reinaldo Saldanha da Gama.
Créditos Wikipédia.
Também foram construídos blindados a partir de tratores agrícolas Fordson, da Ford Motor Company, modelo F1922, para a Guarda Civil do estado de São Paulo, tendo construídos os modelos FS-6 e FS-7, com a mesma camuflagem no padrão francês.

Ainda foram produzidos outros três blindados sobre lagartas, em tratores da Caterpillar da série 22, denominados “Tanks Paulistas”, sendo que apenas dois foram operacionais e o terceiro não ficou pronto a tempo para ser utilizado nos combates. Foi desenvolvido pelo Capitão Reinaldo Saldanha da Gama, com o apoio dos engenheiros da Escola Politécnica de São Paulo. O blindado sobre lagartas era na cor cinza, revestido em chapa de aço rebitada, com torre giratória para metralhadoras leves, possuindo dois holofotes e armado com um lança-chamas que atingia a dezenas de metros de distância, sendo sua tripulação formada por até 6 soldados. Esse modelo atuou principalmente na divisa com o Rio de Janeiro, próximo à entrada de uma ponte na cidade de Queluz. Lá, a margem do Rio Paraíba do Sul, tropas do governo federal tentavam avançar sobre a ponte da cidade e dominar a outra extremidade ocupada pelos paulistas. O blindado então se posicionava na entrada da ponte ou à margem do rio dando cobertura às tropas de infantaria, e com suas metralhadoras e o lança-chamas dissuadia o assalto das tropas federais, inclusive em incursões noturnas. Esse blindado já havia sido projetado um ano antes da revolução para a Força Pública de São Paulo, para fazer parte da Seção de Carros de Assalto, sendo o primeiro veículo a ela incorporado. Porém, o blindado era lento e de pouca mobilidade.

 No conflito foram produzidas também quatro lanchas blindadas, sendo que duas ficaram prontas para serem utilizadas na malha fluvial de São Paulo, tendo atuado em Rio Grande, no Rio Paranapanema e Rio Paraíba do Sul, com uma tripulação de até sete soldados e armadas com uma metralhadora leve, além de fuzis Mauser, ambos de 7mm.

O blindado "FS-2". Créditos Wikipédia.
No Exército Federal, o único blindado utilizado pelas tropas foi o tanque francês Renault FT-17, tendo sido empregado apenas dois modelos na cidade de Passa Quatro, restritos apenas a missões de reconhecimento. Hoje há dois exemplares desse blindado preservados: um no Museu Eduardo André Matarazzo, na cidade de Bebedouro; outro em exposição no pátio do Centro de Instrução de Blindados, na cidade de Santa Maria.

Apesar das inovações trazidas pelos paulistas com esses engenhos, bem como as novas doutrinas militares associadas, esses projetos não foram assimilados, estudados ou aproveitados pelo Exercito Federal, tendo sido todos os protótipos desmontados e seus projetos perdidos.
Aviação.

Durante a revolução, a aviação teve um importante papel no conflito, sendo usada pelos federalistas para eventuais bombardeios e ataques a posições rebeldes, como os dez bombardeios aéreos a Campinas, que causaram muitos danos à infraestrutura da cidade. Os ataques foram comandados pelo major-aviador Eduardo Gomes de 15 a 29 de setembro de 1932. Contudo, o Grupo de Aviação do Exército Constitucionalista, comandado pelo então major-aviador Ivo Borges e sediado no Campo de Marte, também fez muito proveito da aviação durante o conflito.

Os aviões atuaram principalmente no bombardeio de posições em complemento com a artilharia. Também visavam trazer inquietação sobre as concentrações de tropas e dissuadir os soldados de suas posições.

A frota das forças federais era cerca de cinco vezes maior que a frota do exército constitucionalista. Além disso, as missões dos aviões federalistas eram mais regulares. Contudo, os paulistas tinham mais flexibilidade operacional do que os federalistas, pois enquanto estes dispunham de poucos aeródromos os paulistas se serviam do Campo de Marte como base principal e também de aeródromos estratégicos em Lorena, Taubaté, Mogi-Mirim, Campinas e Itapetininga. Assim, articulavam-se com grande proveito a partir de uma posição central e secundárias em relação às zonas de combate, com facilidade de desdobramentos, podendo facilmente reabastecer as aeronaves e colocar-se em posições bem próximas às frentes de combate, conseguindo com os mesmos aviões e pilotos a realização de grande número de sortidas. Os principais modelos utilizados por ambos os lados foram o Waco CSO e o Potez 25. Na frota federalista, os Waco CSO de cor vermelha logo se tornaram o terror das tropas paulistas e eram chamados de “vermelhinhos”.
Avião das tropas federais abatido pelos paulistas em setembro de
1932. Créditos Wikipédia.

Os ataques aéreos foram inéditos até então, não raro causando pânico entre os combatentes. Esse efeito psicológico foi explorado ao máximo pelos federalistas, que instituíram a prática de usar patrulhas aéreas regulares sobre tropas paulistas visando inquietação entre os soldados.

A despeito da superioridade da frota federalista a aviação paulistas obteve significativas vitórias no conflito. Segundo o Cel. Herculano de Carvalho e Silva, então comandante da Força Pública Paulista, em seu livro “A Revolução Constitucionalista”, a aviação constitucionalista obteve relativo êxito durante a campanha, tendo abatido ou inutilizado alguns aviões federalistas e realizado vários bombardeios bem-sucedidos às posições das tropas federais, além de verdadeiros dogfight nas perseguições e combates no ar contra os aviões federalistas, tendo frustrado várias missões de ataque aéreo das forças adversárias.

Dentre alguns episódios descritos pelo comandante está o do dia 8 de agosto de 1932, em que o Major Pereira Junior telegrafa para o Tenente-coronel Francisco Júlio César de Alfieri para informar que um avião federalista, um Potez 25, foi abatido na cidade de Buri pelas metralhadoras de um avião constitucionalista vindo cair já em chamas no cemitério velho daquela cidade. Em 13 de agosto, os paulistas realizaram ataque aéreo contra posições dos federalistas na cidade de Areias, já ocupada pelos governistas, utilizando um Potez e dois Waco. Durante o retorno, próximo a Bom Jesus da Bocaina, interceptaram um Potez governista que estava a bombardear a usina elétrica local, ocorrido rajadas de metralhadora de parte a parte sem perdas, porém, os paulistas desengajaram do combate por falta de munição e combustível. No dia 22 do mesmo mês houve um combate aéreo envolvendo um Waco e um Nieuport paulistas e um Waco e um Potez do lado do governo, onde os paulistas foram interceptados no regresso de um ataque às tropas federais em Queluz, ocorrendo troca de rajadas entre os aviões, mas nenhum deles foi abatido. No dia 4 de setembro de 1932 o tenente Virgílio telegrafa para o Cel. Alfieri informando que um avião federalista foi abatido em Mogi-Mirim, sem mais detalhes. Em 11 de setembro, o major Romão Gomes informa àquele mesmo comandante que outro avião federalista foi abatido na cidade de Casa Branca-SP após tentar atacar tropas próximas à estação ferroviária, mas após ser atingido por metralhadoras antiaéreas dos paulistas veio a se esfacelar no solo, matando seus dois ocupantes, entre eles o aviador Lauro Horta Barbosa do Aero Clube Brasileiro. Há também outro episódio datado de 21 de setembro, em que num ataque surpresa a Moji-Mirim, já ocupada por tropas federais, os aviadores constitucionalistas conseguiram inutilizar 5 aviões dos federalistas ali estacionados.

Prédio destruído por bombardeio aéreo federalista em Campinas.
Créditos Wikipédia.
Contudo, a aviação constitucionalista sofreu pesados reveses. Dentre eles, o ocorrido em 24 de setembro, cujo plano previa um ataque divisionário aos navios da Marinha brasileira que faziam o bloqueio de Santos. Para tanto, foi deslocada uma esquadrilha de três aviões liderada pelo então major-aviador Lysias Augusto Rodrigues para uma ofensiva aos navios na finalidade de fazê-los concentrar a atenção nos aviões, dando chance ao navio Ruth, que trazia armamento e munição para os rebeldes, de modo a iludir o bloqueio naval e entrar no porto. Porém, o plano foi mal sucedido e nessa ofensiva um dos aviões, um Curtiss O1-E Falcon, entrou em chamas quando realizava um mergulho no ar em direção ao cruzador Rio Grande do Sul e se esfacelou no mar, possivelmente por ter sido alvejado pelo fogo antiaéreo do navio, resultando na morte dos dois ocupantes: o piloto, tenente José Ângelo Gomes Ribeiro; e o observador, o tenente Mário Machado Bittencourt.

Em 18 de setembro, na cidade de Campinas, o escoteiro Aldo Chioratto, de 9 anos, foi morto após ser atingido estilhaços de uma bomba atirada por um dos “vermelhinhos” ao lado da estação ferroviária daquela cidade.
Várias cidades paulistas próximas aos locais de combate foram bombardeadas da mesma forma, incluindo a capital. Na frente norte, cidades como Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Lorena, sofreram significativos bombardeios da aviação federalista. Ao fim de setembro, próximo do fim do conflito, o recuo das tropas paulistas de sua linha defensiva para Guaratinguetá, fez com que aquela cidade fosse visada pelos “vermelhinhos”, com inúmeros bombardeios nas posições de tropas e inclusive no perímetro urbano da cidade. Entre os aviadores que tomaram parte dessas missões de bombardeio sobre as cidades paulistas do Vale do Paraíba estava o então tenente-aviador Francisco de Assis Correia de Mello, popularmente conhecido por "Mello Maluco" pelos soldados, devido ao seu excessivo arrojo nas missões.

Fim do Conflito.

Telegrama relatando o fim das hostilidades. Créditos Wikipédia.

Em meados de setembro, as condições econômicas do Estado de São Paulo eram precárias, dado o cerco militar e o isolamento comercial. Além disso, as cidades do interior do Estado estavam sendo paulatinamente invadidas pelas tropas de Getúlio Vargas e a capital paulista cada vez mais ameaçada pela ocupação militar. A asfixia comercial era em grande parte causada pelo bloqueio ao porto de Santos, impedindo a remessa de suprimentos básicos a população do Estado e também inviabilizando o reabastecimento de recursos militares às tropas constitucionalistas, o que tornava cada vez mais insustentável seu poder defensivo que até então era viabilizado pelas contribuições feitas por seus cidadãos e pela mobilização de voluntários na produção e distribuição de suprimentos. Soma-se ainda o fato de que praticamente toda indústria paulista ou estava paralisada devido ao conflito ou estava a se dedicar na produção de materiais e suprimentos para as tropas constitucionalistas.

Ciente da iminente derrota militar e das implicações da provável ocupação da capital pelas forças getulistas, a então Força Pública de São Paulo (atual Polícia Militar de São Paulo) comandada pelo Coronel Herculano de Carvalho e Silva, juntamente com o comandante supremo do Exército Constitucionalista, o General Bertoldo Klinger, obtiveram um armístico e se engajaram na negociação junto ao General Pedro de Aurélio de Góis Monteiro para o fim definitivo do conflito. Após alguns dias de negociação, no 2 de outubro de 1932, na cidade de Cruzeiro, é enfim assinada a rendição e consequentemente dando por encerrado o conflito. Entre os termos do acordo, foi estabelecido que a Força Pública de São Paulo retornaria aos quartéis para reassumir suas funções na segurança pública do Estado e o Coronel Herculano de Carvalho e Silva assumiria interinamente o governo do Estado de São Paulo até a chegada do interventor designado por Getúlio Vargas. Com a retirada geral das tropas da Força Pública paulista, as demais tropas constitucionalistas compostas por elementos do Exército e voluntários, vendo-se incapazes de sustentar os combates devido a esse grande desfalque em suas linhas defensivas, também abandonaram as trincheiras em direção a capital e definitivamente encerrando os combates.

No dia 6 de outubro, o General Valdomiro Castilho de Lima, então comandante das forças militares do Sul do Brasil, assume a intervenção do Estado de São Paulo. Foi a segunda vez em menos de dois anos que as tropas gaúchas ocuparam a capital paulista, sendo a primeira vez durante a revolução de 1930. Com a derrota militar da Revolução Constitucionalista, a maior parte de seus líderes foi exilada na cidade de Lisboa em Portugal.

Consequências.

Obelisco de São Paulo, no Parque Ibirapuera, construído
em homenagem aos heróis da Revolução Constitucionalista.
Créditos Wikipédia.
Ao fim do conflito, com exceção dos militares da Força Pública de São Paulo, os principais líderes do Movimento Constitucionalista foram enviados para o exílio em Portugal. Entre os paulistas, as baixas são estimadas em mais de mil mortos. Atualmente, no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera é guardada as cinzas de 713 ex-combatentes, além dos cinco jovens mortos em decorrência do protesto contra o governo de Getúlio Vargas em 23 de maio de 1932. Do lado federal, jamais foram liberados estimativas de mortos ou feridos. A Revolução de 1932 foi considerada por historiadores como um dos maiores conflitos na história brasileira no século XX.

Na versão do governo federal, então presidido por Getúlio Vargas, o conflito não foi necessário, pois as eleições gerais já haviam sido marcadas para 1933. Já na versão dos líderes do levante, não haveria Assembleia Constituinte tampouco a redemocratização e o Estado de Direito no Brasil não fosse o Movimento Constitucionalista de 1932. Porém, com exceção do estado de São Paulo, no restante do país prevalece a versão de Getúlio Vargas e de seus apoiadores sobre aquele conflito, isto é, a tese de que foi uma conspiração orquestrada pela elite paulista que, de posse dos meios de comunicação da época no Estado e utilizando a população paulista como massa de manobra, visariam depô-lo da Presidência da República apenas para reconduzir ao poder um representante das oligarquias paulistas, que teriam perdido prestígio e influência política após a Revolução de 1930. Mas com o fracasso desse objetivo inicial, a rebelião teria assumido um velado caráter separatista. Essa versão ainda exalta a figura de Getúlio Vargas devido a sua atitude reconciliatória no pós-conflito, atribuindo a ele o crédito das concessões políticas aos revoltosos e de praticamente todas as reivindicações que motivaram a revolução, além de ter se reconciliado com os lideres políticos paulistas.

Após o conflito, ao ver o seu governo provisório em risco, Vargas deu apoio ao processo de reconstitucionalização do país e confirmou a data da eleição para a Assembleia Constituinte, além de ter se afastado gradualmente do movimento tenentista encabeçado pelo Clube 3 de outubro, que até então havia sido o seu fiador no poder, mas que era contrário a reconstitucionalização do país. Em 3 de maio de 1933, foram enfim realizadas as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, quando as mulheres votaram pela primeira vez no Brasil em eleições nacionais. Nesta eleição, graças à criação da Justiça Eleitoral, as fraudes deixaram de ser rotina nas eleições brasileiras. Em 1934, durante a Constituinte, Getúlio Vargas foi eleito indiretamente para a Presidência da República para um mandato de 4 anos e ao final da Assembleia foi promulgada a Constituição de 1934, o que marcou a volta da democracia e do estado de direito no país, bem como a pacificação entre os grupos políticos, além do retorno do exílio dos líderes rebeldes e da reincorporação dos militares rebeldes aos seus respectivos postos nas Forças Armadas do Brasil, embora a anistia destes últimos tenha sido em muito resultado da influência e pressão do general Pedro Góis Monteiro sobre o governo federal. Ainda naquele ano, Vargas nomeia um interventor civil e paulista para o governo de São Paulo, Armando de Sales Oliveira, em mais uma atitude de pacificação. Em 1938, em outra atitude reconciliatória, Vargas participou pessoalmente da inauguração da Avenida 9 de julho na capital paulista.
Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932 no interior do
Obelisco de São Paulo. Créditos Wikipédia.
Anos mais tarde, durante o regime do Estado Novo, dois interventores federais em São Paulo saíram das hostes do Partido Republicano Paulista: Ademar de Barros (1938-1941) e Fernando de Sousa Costa (1941-1945), que havia sido secretário da agricultura do ex-governador de São Paulo, Júlio Prestes. Tornaram-se ambos grandes aliados de Getúlio Vargas em São Paulo.

Apesar da derrota militar, as lideranças paulistas consideraram terem obtido uma vitória moral. No estado de São Paulo, a Revolução de 1932 transformou-se na mais importante referência histórica da cidadania, dos valores e dos princípios de sua gente, a exemplo do que é a Guerra dos Farrapos para os gaúchos. Ainda durante o conflito, por meio da propaganda, foram reavivadas as tradições bandeirantes do estado, por exemplo, com imagens dos principais bandeirantes paulistas nas ilustrações das notas da moeda paulista colocada em circulação, no rádio, em cartazes e em outras várias publicações. O dia 9 de julho desde 1997 é feriado no Estado de São Paulo, em que são realizados diversos desfiles e eventos comemorativos por todo Estado em lembrança daquele evento histórico e também daqueles que tombaram pela causa Constitucionalista. Contudo, no restante do país não há qualquer comemoração referente a Revolução Constitucionalista de 1932 e também é pouco lembrado, mesmo nos círculos acadêmicos, embora tenha ficado marcado na história do Brasil como um dos principais conflitos civil e militar, tanto pela mobilização ocorrida quanto pelo número de mortos, que em muito superou as baixas ocorridas na campanha militar brasileira na Itália na Segunda Guerra Mundial.

Preservação da Memória e dos Ideais de 1932.

No feriado estadual de 9 de julho, anualmente se realizam comemorações e desfiles cívico-militares, sendo que o mais importante desfile se realiza no Parque do Ibirapuera em São Paulo. Nesta solenidade, são depositados no Mausoléu do Soldado Constitucionalista os restos mortais dos veteranos falecidos no ano corrente.

Em 25 de Janeiro de 1934 foi inaugurado o primeiro monumento em homenagem aos combatentes mortos durante o conflito, na cidade de Itapira-SP. O Monumento do Morro do Gravi é, até os dias atuais, o grande marco em homenagem aos soldados mortos em todo o "Setor Leste" Paulista.

Em homenagem à revolução de 1932, no início de julho, um grupo de paulistas faz a "Caminhada 9 de Julho", percorrendo, todos os anos, a pé, 927 quilômetros pelo estado de São Paulo. Cruzam o estado de São Paulo, saindo de Rubineia, no extremo oeste do estado, e vão terminar a caminhada em Cruzeiro, no Vale do Paraíba, onde foi assinada a rendição dos paulistas. Os organizadores desta caminhada cívica pretendem entrar para o livro Guiness dos recordes como a maior caminhada cívica do mundo.

Em 2008 a cidade de Cruzeiro recebeu através da lei estadual 13203 o honroso título honorífico de "Capital da Revolução Constitucionalista de 1932" em virtude dos marcantes episódios desse conflito ocorridos no município, dentre os quais a assinatura do armistício, termo de cessação da Revolução que se deu no dia 2 de outubro de 1932 na Escola Arnolfo Azevedo (na época transformada em quartel-general das tropas paulistas), localizada na região central da cidade.

O Exército Constitucionalista ainda existe e é presidido por veteranos de 1932. A Sociedade dos Veteranos de 1932 preserva a memória, documentos e relíquias de 1932.

Impacto Cultural.

O conflito foi retratado em novelas da televisão brasileira como a Novela Éramos Seis (1994), produzida e transmitida pelo SBT; e a Novela Esperança (2002), produzida e transmitida pela Rede Globo, ambas com uma perspectiva favorável a causa dos constitucionalistas. A minissérie da Rede Globo JK (2006), sobre a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek, narra sua participação no conflito, em que atuou como médico na região do Túnel em Passa Quatro-MG. Em 2002 foi produzido pela TV Cultura e a TV assembleia o documentário A Guerra dos Paulistas - A Revolução Constitucionalista de 1932, em comemoração aos 70 anos do movimento armado.

1° Parte

2° Parte

Fontes.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Constitucionalista_de_1932

https://pt.wikipedia.org/wiki/M.M.D.C.

https://www.megacurioso.com.br/politica/37144-dia-9-de-julho-e-feriado-em-sao-paulo-voce-sabe-por-que-.htm

https://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/as-imagens-revolucao-constitucionalista-1932.htm


Nenhum comentário:

Postar um comentário